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Será que o amor é uma questão de sorte?

 

Psicóloga Gabriela Russo

gabirusso@uol.com.br

 

                              

Relacionar-se é inerente e essencial ao ser humano, o termo relacionamento implica a existência de atitudes e atividades entre pessoas, o que nem sempre é uma tarefa fácil.
     Em minha prática clínica, observo que muitos pacientes trazem queixas e dificuldades em seus relacionamentos interpessoais. Dentre os diversos tipos de relacionamentos, optei em falar aqui sobre o relacionamento amoroso, por ser bastante significativo em nossas vidas. Muitas são as razões que podem tornar este assunto conflitante, e aqui olharemos por uma ótica dentre as diversas existentes.

     É possível observar que muitos conceitos vêm se transformando, a idéia do amor romântico onde somos metade, necessitando encontrar a outra metade para nos sentirmos completos, vem dando espaço a uma concepção mais madura, a de que somos unidades.
       
               Porém, o sentimento de que somos fração continua inerente a muitas pessoas, talvez possa arriscar a dizer que na maioria. Idéia esta que pode levar a escolha precoce do parceiro, baseada muito mais na falta de auto-estima, nas sensações de vazio e incompletude e na ansiedade do encontro de um par para a realização do sonho romântico.

A busca no outro daquilo que falta em si pode levar a procura incessante da realização do sonho em encontrar o parceiro perfeito. Projetam-se os próprios desejos sobre outra pessoa, esperando reações de acordo com o aquele ser que idealizamos. Mas a convivência irá mostrar que cada um reage e se comporta conforme suas peculiaridades. Nesse caso a decepção é quase inevitável, uma vez que o outro é o que é e não o que se fantasia sobre ele.

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 Ainda assim, é possível chegar na percepção de que o outro não é o que se idealizou e depois de elaborada a frustração pode-se concluir que o relacionamento vale a pena e pode ser vivenciado de maneira satisfatória.

     A problemática ocorre quando se percebe que a relação está permeada pela falta de um ou mais dos ingredientes básicos como: admiração, respeito, atração física e intelectual, companheirismo, desejo sexual, e ainda assim, continua-se na tentativa e na crença de que o outro e a relação poderá modificar-se.

     Esta escolha traz de maneira implícita o desejo de transformar o outro naquilo que se espera para sua própria satisfação e busca da sensação de completude, o que provavelmente acarretará apenas em desgaste. É necessário perceber que ninguém possui o poder de mudar o outro, e que a transformação ocorre por necessidades internas e não por pressões externas. A premissa básica para o companheirismo é a aceitação um do outro, e para aceitar o outro é necessário primeiramente aceitar a si próprio.

     É comum vermos relações conflitantes de longa duração na esperança de que haja uma transformação. E mesmo que, opte-se por mudar o parceiro, percebe-se que muitas pessoas acabam por encontrar indivíduos com características e comportamentos semelhantes, ocasionando assim em relacionamentos que se estabelecem e prosseguem sob uma dinâmica bastante parecida com as anteriores. É bastante usual escutar frases tais como: “sempre escolho a pessoa errada”, “achei que desta vez seria diferente”, “me decepcionei novamente”, “não tenho mesmo sorte no amor”. Onde se coloca o outro como a razão do mal estar, culpabilizando-o pelos obstáculos, limites e barreiras para o crescimento individual.

     Não é regra, ainda assim é freqüente vermos que indivíduos que ainda não se estabeleceram em um relacionamento amoroso estável, entram e saem de relações onde a queixa sempre está baseada em questões semelhantes, como por exemplo: relacionamento permeado por falta de respeito, falta de atração física, falta de admiração, manipulação, traição, inferiorização do outro...
     É necessário pensar sobre o que faz sempre atrair o mesmo tipo de pessoa por mais que, superficialmente, no início pareça diferente. Conscientizar-se de que existem questões internas, fatores da personalidade, em cada um de nós, que irá determinar as escolhas pessoais e o dinamismo de uma relação. Se envolver em relações repetitivas ou manter-se em um longo relacionamento conflitante, não se deve apenas ao outro, afinal o que acontece com cada um nos diz respeito. Desta maneira, é essencial uma reflexão para tentar constatar o que de fato acontece. É muito mais cômodo buscar no outro o que falta em si, do que rever a própria vida, atitudes, valores e encontrar os motivos que leva a ser o que se é e mudar aquilo que não se quer ser.

     É chegada a hora de conscientizar-se de que todo relacionamento é 50% de responsabilidade para cada uma das partes, lembrando-se que cada uma possui sua própria personalidade, responsabilidades, perspectivas, expectativas, crenças e valores. O relacionamento é resultado do que cada parte coloca nele e contribui com sua porção para a evolução, adaptando-se um ao outro, compartilhando, concedendo, mas, em momento algum se anulando.
     Para que o crescimento aconteça é preciso que amor e liberdade de ser o que se é convivam lado a lado. É preciso a busca do prazer e responsabilidade pessoal para o desenvolvimento individual assim como o do casal.

     Observa-se que muitos do que estão em um relacionamento visto como saudável encontraram anteriormente a independência, vivenciaram um tempo consigo mesmo e com outros tipos de experiências que não apenas a de um relacionamento amoroso, compreendendo assim sua própria individualidade e aceitando a condição de unidade. Aqueles que são mais “competentes” para ficar consigo mesmos tendem a eleger melhor seus pares, o que na prática só traz benefícios.

     É grande a probabilidade de um relacionamento dar certo quando os parceiros se vêm como unidades, seres únicos que se aproximam, se disponibilizam a dividir, respeitar, admirar confiar em si e no outro. Porém, vale lembrar que isso não significa harmonia constante e sim negociação dos conflitos e cooperação mútua, sem fugir do confronto, sem concordar em todas as situações e nem obrigar o parceiro a uma concordância incondicional. É ver o outro como alguém que possui qualidades e também defeitos, que está exposto aos desafios da vida, a vitórias e fracassos, com seus pontos fortes e com suas fragilidades.

     Um bom relacionamento tem como base a palavra “nós”, a interação de um com o outro, sem que haja independência e nem dependência e sim uma interdependência, em que ambos caminhem juntos, lado a lado.

 

 

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